O agronegócio brasileiro figura entre os maiores do planeta. Dentro desse universo, um segmento desperta atenção de investidores e técnicos. O mercado de tratamento de sementes no Brasil cresce de forma acelerada. Cada safra registra demanda maior por grãos protegidos e valorizados. Produtores entenderam que a semente é o insumo mais decisivo da lavoura.
Tratar esse material deixou de ser opcional e virou rotina obrigatória.
Estima-se que mais de 90% das sementes comerciais recebam algum revestimento. Esse percentual sobe a cada ciclo com a entrada de novas tecnologias. O faturamento do setor supera cifras expressivas e atrai multinacionais. Compreender essa engrenagem ajuda a enxergar para onde caminha a agricultura nacional.
O que impulsiona esse crescimento sustentado
Expansão da Fronteira Agrícola
Novas áreas incorporadas ao cultivo demandam sementes de alta performance. Os solos tropicais apresentam desafios sanitários que exigem proteção química eficiente. O calor e a precipitação intensa favorecem doenças fúngicas severas.
Sem revestimento adequado, a perda de estande é praticamente certa nessas áreas. O tratamento surge como seguro contra variáveis climáticas imprevisíveis. Fazendeiros que migraram do Sul para o Norte adotaram a prática rapidamente. A adaptação foi natural diante das condições mais agressivas encontradas lá.
Legislação e Exigências Sanitárias
Normas federais tornaram obrigatório o controle de patógenos em lotes comerciais. Sementes sem selo de qualidade não podem circular entre estados brasileiros. Essa barreira legal profissionalizou o setor e eliminou operadores informais.
Empresas precisam investir em laboratório e certificação para manter-se ativa. O custo de adequação foi alto, mas elevou o patamar de confiabilidade. O consumidor final da semente recebe um produto rastreável e seguro. Esse ambiente regulatório atrai capital estrangeiro para o segmento sementeiro. A credibilidade institucional do Brasil melhorou no cenário internacional agrícola.
Como osetor está organizado hoje?
Grandes Produtores e Multinacionais
Empresas globais dominam o comércio de ingredientes ativos e polímeros. Elas detêm patentes de moléculas que protegem contra fungos e nematoides. A pesquisa desses grupos acontece em centros espalhados pelo mundo inteiro.
No Brasil, possuem fábricas próprias e equipes comerciais robustas. Seu portfólio inclui desde fungicidas isolados até pacotes completos de proteção. A força dessas corporações impõe ritmo de inovação acelerado ao setor. Marcas menores precisam encontrar nichos específicos para competir com vantagem. A diferenciação acontece em serviços agregados e suporte técnico especializado.
Produtores Nacionais e Unidades de Tratamento
Paralelas às gigantes, empresas brasileiras operam unidades de processamento terceirizado. Esses prestadores oferecem o serviço de tratamento para cooperativas e fazendeiros. Recebem o grão bruto e devolvem ensacado, revestido e etiquetado conforme a lei.
O modelo reduz custo fixo de quem não tem volume para tratar internamente. Muitas dessas empresas ficam em regiões estratégicas próximas aos pólos produtores. A logística enxuta diminui riscos de contaminação e perda de vigor no trajeto. Esse ecossistema fortalece a cadeia local e gera empregos diretos na zona rural.
Tendências que vão moldar o próximo decênio
Biológicos Ganham Espaço na Camada Protetiva
Microrganismos benéficos começam a integrar formulações de revestimento de sementes. Trichoderma e Bacillus são exemplos de fungos e bactérias usados como biodefensivos. Eles colonizam a raiz e criam escudo natural contra patógenos do solo. O apelo sustentável dessa abordagem atrai mercados importadores europeus e asiáticos.
A combinação entre químico e biológico já é realidade em lavouras premium. O desafio está em manter o microrganismo viável dentro da embalagem comercial. Empresas investem em encapsulamento e formulações que prolongam a prateleira do produto. Essa frente representa a inovação mais promissora do horizonte atual.
Digitalização e Rastreabilidade Total
Do campo de multiplicação ao ensaque, cada dado entra numa cadeia imutável. O comprador acessa o histórico completo do lote com um simples QR code. Essa transparência responde a exigências crescentes de consumidores e importadores rigorosos. Plataformas conectam fabricante de defensivo, tratadora e agricultor num mesmo fluxo de dados. A informação deixa de ser um problema e vira diferencial competitivo real.
Impacto econômico direto na lavoura
Relação Custo-Benefício Para o Produtor
O gasto com tratamento representa menos de três por cento do custo total. Contudo, o retorno sobre esse investimento chega a ser superior a dez vezes. No plantio de soja, cada ponto percentual de estande a mais pesa na balança comercial. Grãos protegidos emergem mais rápido e competem melhor com plantas daninhas.
A diferença entre tratar e não tratar pode ultrapassar dez sacos por hectare. Esse número, multiplicado por milhares de hectares, justifica qualquer despesa adicional. A decisão de tratar passou a ser puramente racional, não emocional ou opcional. Agricultores que ignoram essa realidade ficam para trás na comparação de produtividade.
Perspectivas e desafios futuros
O caminho do setor aponta para especialização e personalização cada vez maiores. Em breve, sementes serão tratadas conforme o histórico sanitário de cada talhão específico. Mapas de fertilidade e incidência de pragas vão guiar a receita do revestimento. Essa abordagem sob medida maximiza a eficiência e reduz desperdício de insumo.
A relação entre custo e benefício ficará ainda mais favorável ao produtor rural. O Brasil tem condições de liderar essa transformação técnica no cenário global. Universidades e institutos nacionais já produzem conhecimento de ponta na área. Conectar pesquisa acadêmica com a indústria é o próximo passo necessário e urgente. Tratar sementes com excelência é garantir alimento para milhões de pessoas. Esse compromisso coloca o país em posição de destaque no cenário mundial.
A movimentação logística do comércio eletrônico mudou o mapa de Rondônia nos últimos dois anos. Pela primeira vez na série histórica do Mapa da Logística, divulgado pela Loggi em 2025, o estado entrou no grupo dos dez que mais recebem encomendas no Brasil.
O dado marca uma virada estrutural: o consumidor rondoniense, antes restrito ao varejo físico das principais cidades, hoje compra praticamente qualquer produto pela internet, com tempos de entrega cada vez menores.
A escala da transformação aparece também nos dados oficiais do governo estadual. Segundo o Relatório Semanal de Dados do Desenvolvimento Econômico de março de 2025, produzido pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico de Rondônia, com apoio da Secretaria de Estado de Finanças, o comércio rondoniense fechou 2024 com aumento de 20% no faturamento em relação ao ano anterior. A indústria cresceu 19%, e a agropecuária bateu R$ 18 bilhões, alta de 13%.
Por trás dessa expansão, há um movimento silencioso que muda a forma como o pequeno comerciante de Alta Floresta D’Oeste, Rolim de Moura ou Cacoal disputa a atenção do consumidor: a compra começa no Google, não na vitrine. E é exatamente aí que a maioria dos negócios locais tem perdido espaço.
O consumidor da Zona da Mata já comprou três vezes antes de entrar numa loja física
Pesquisas de comportamento de consumo no varejo brasileiro mostram que mais da metade das decisões de compra hoje passam por uma busca prévia na internet.
Quando o consumidor digita o nome de um produto, de um serviço ou de uma categoria, ele recebe duas categorias de resultado: os anúncios pagos, marcados como tal, e os resultados orgânicos, considerados mais confiáveis pelo próprio usuário.
A diferença de peso entre os dois é significativa. Levantamentos do mercado de busca apontam que cerca de 53% de todo o tráfego recebido pelos sites comerciais vem de resultados orgânicos do Google.
E, quando o usuário olha para a tela de resultados, os links naturais concentram 94% dos cliques, deixando apenas 6% para os anúncios visíveis no topo da página. O dado mostra por que muitas empresas que investem somente em mídia paga sentem o resultado cair no momento em que a campanha é desligada.
A consequência prática é direta. O empresário que aparece bem nas buscas por produtos e serviços da sua cidade recebe um fluxo constante de visitantes sem precisar pagar por cada clique.
O que aparece somente nos anúncios pagos, ao contrário, vê o tráfego desaparecer no exato momento em que o orçamento de mídia é interrompido.
O recorde de empresas abertas e a fila digital
Rondônia registrou um marco em 2026: mais de 11 mil empresas abertas apenas no primeiro trimestre do ano, número considerado recorde histórico pela Junta Comercial do Estado.
A digitalização dos processos cartoriais e a redução de custos de abertura, que caíram de uma média de R$ 5.099 para R$ 388 nos municípios de maior movimento, ampliaram o ritmo de formalização.
O problema é que abrir uma empresa é apenas o começo. A fila de competidores que disputam o mesmo consumidor cresceu na mesma proporção. Em segmentos sensíveis como moda, alimentação, beleza, materiais de construção, suplementos e serviços profissionais, o lojista de Cacoal não disputa mais apenas com o vizinho de rua.
Ele disputa com lojas virtuais de Porto Velho, Cuiabá, Goiânia, São Paulo e, em vários casos, com plataformas internacionais que entregam em todo o estado.
Quem aparece primeiro nos resultados do Google leva a venda. Quem aparece na segunda página, na prática, não existe para o consumidor.
Por que os pequenos negócios de Rondônia não aparecem
A invisibilidade digital tem causas conhecidas, mas pouco enfrentadas pelos pequenos varejistas do estado. A primeira é estrutural: a maioria dos sites de comércio local foi montada para parecer profissional, não para ser encontrado pelo Google.
Página de abertura bonita, fotos boas, mas sem o trabalho técnico que faz o site competir nas buscas, como otimização de palavras-chave, velocidade de carregamento adequada e estrutura interna de links.
A segunda causa é a falta de autoridade do domínio. O Google trata cada site como uma entidade com reputação, e essa reputação se constrói, em grande parte, a partir de quantos outros sites de qualidade o citam por meio de links.
Esses links externos, chamados de backlinks, funcionam como votos de confiança que outros sites dão para o seu. Quanto mais relevantes esses sites forem, maior é o peso do voto.
Para o pequeno e médio empresário que está construindo presença digital, vale entender desde cedo como funcionam os backlinks brasileiros que efetivamente movem o ponteiro do posicionamento.
Não é qualquer link que ajuda. Links em sites sem credibilidade, sem público real ou em portais punidos pelo Google podem ter o efeito contrário e prejudicar o domínio.
A terceira causa é cultural. O empresário do interior de Rondônia, em geral, foi formado em um ambiente onde investimento em marketing significava panfleto, rádio, fachada e outdoor.
A migração para o digital ainda é encarada como despesa, e não como ativo. O resultado prático é que o concorrente que entendeu o jogo antes leva o cliente, mesmo estando a centenas de quilômetros de distância.
O custo de ignorar a busca orgânica em um mercado em alta
A escolha entre tráfego pago e tráfego orgânico não é uma decisão de gosto. É uma decisão de modelo de negócio. Campanhas pagas geram visitas no mesmo dia em que são ativadas, o que torna o canal atraente para quem precisa de resultado imediato.
O problema aparece a partir do segundo ou terceiro ano de operação, quando o custo por clique sobe, a concorrência aumenta e a empresa percebe que continua dependente da mesma planilha de mídia paga, sem ter construído nenhum ativo próprio.
Pesquisas do setor mostram que 49% das empresas reconhecem a busca orgânica como o canal com melhor retorno sobre investimento em prazos mais longos. No segmento B2B, onde os ciclos de decisão são extensos e a confiança do comprador pesa, esse índice chega a 59%.
Mesmo assim, a alocação de orçamento ainda é desbalanceada: cerca de 72% do investimento em marketing digital vai para mídia paga, contra menos de 30% destinados ao orgânico.
Antes de definir onde colocar o investimento, vale entender em profundidade as diferenças e vantagens entre tráfego orgânico e pago. O equilíbrio entre os dois canais costuma definir não só o custo de aquisição de cliente, mas também a previsibilidade da receita ao longo dos anos.
Para Rondônia, onde o varejo cresce em ritmo acima da média nacional e o e-commerce começa a entrar de fato no estado, esse desequilíbrio cobra um preço alto.
Negócios que poderiam aparecer com regularidade nas buscas por produtos locais permanecem dependentes de campanhas pontuais, com pouca recorrência e custo crescente.
O que muda quando o pequeno negócio entra na busca
Em mercados regionais que já enfrentaram esse mesmo movimento de virada, como o interior paulista, a Serra Gaúcha e o Oeste Catarinense, a experiência mostra um padrão.
Os negócios que começaram cedo a estruturar conteúdo próprio, otimizar o site e construir uma rede consistente de citações em portais de notícias e veículos especializados conquistaram posição estável no Google em prazos de seis a doze meses. A partir desse ponto, o custo por venda cai e a receita orgânica se torna previsível.
Em Rondônia, o cenário ainda é favorável para quem se mover primeiro. A concorrência por palavras-chave locais é menor do que em estados do Sudeste, o que reduz o tempo necessário para conquistar boas posições.
Termos como “loja de roupas em Cacoal”, “móveis planejados Rolim de Moura”, “advogado Ji-Paraná” ou “consultório odontológico em Alta Floresta D’Oeste” ainda podem ser disputados com investimento moderado, desde que a estratégia combine produção de conteúdo útil, ajustes técnicos no site e construção de autoridade.
A janela, no entanto, tende a se fechar. À medida que mais empresas locais entendem o jogo e começam a investir em SEO, o custo de entrada sobe. Os primeiros a se posicionar geralmente mantêm a posição com investimento menor do que os que chegam depois.
O papel dos portais regionais nessa equação
A virada digital de Rondônia não acontece só pela ação dos comerciantes. Os portais regionais, que cobrem cidades como Cacoal, Rolim de Moura, Pimenta Bueno, Ji-Paraná e Alta Floresta D’Oeste, ganham um papel central no novo cenário.
Anderson Alves, CEO da QMIX Digital, agência referência em backlinks na capital de Goiás, explica que são esses veículos que ajudam a construir a presença digital do estado nas buscas, ao publicar conteúdo informativo e relevante para a economia local.
Para o consumidor, isso significa encontrar respostas qualificadas a uma distância de um clique. Para o pequeno empresário, abre uma janela de visibilidade que dificilmente conseguiria sozinho.
A combinação entre portais regionais ativos, comércio local crescente e infraestrutura logística em expansão coloca a Zona da Mata em uma posição rara no mapa do varejo brasileiro: a de uma região com tudo para crescer no digital, desde que aproveite o momento.
O que o pequeno empresário pode fazer agora
A primeira providência é entender em que estágio o próprio negócio está. Vale digitar no Google as palavras-chave que um cliente provavelmente usaria para encontrar o seu produto ou serviço na sua cidade. Se a empresa não aparece na primeira página, há trabalho a fazer.
A segunda é avaliar a qualidade do site. Velocidade, estrutura de páginas, presença de conteúdo útil, descrições de produtos bem escritas e dados de contato visíveis fazem parte da higiene básica. Sites lentos ou com falhas técnicas dificilmente sobem nos resultados, por melhor que seja o produto vendido.
A terceira é entender que o crescimento orgânico exige tempo. Os primeiros sinais aparecem entre três e seis meses, e os resultados sólidos costumam consolidar-se a partir do primeiro ano.
Para quem precisa de fluxo de caixa imediato, faz sentido combinar a estratégia orgânica com campanhas pagas pontuais, mas tratando o orgânico como o investimento que constrói o ativo de longo prazo.
A entrada de Rondônia na rota nacional do e-commerce não vai esperar. Os pacotes já chegam à Zona da Mata, o consumidor já compra pela internet e o varejo já cresce. A pergunta é se os comerciantes locais vão estar nos resultados quando a próxima busca acontecer.
Uma mulher, identificada como Lucinete Xavier Oliveira, morreu após ser atropelada no final do dia deste sábado (08), na RO-492, km 2,5, na zona rural de Santa Luzia d’Oeste, em Rondônia.
De acordo com informações, a guarnição foi acionada para atender a um sinistro de trânsito. Quando os policiais chegaram ao local, encontraram outra equipe policial que já havia localizado e detido o condutor envolvido na ocorrência.
A vítima havia sido socorrida e encaminhada ao Hospital de Pronto-Socorro de São Felipe do Oeste, mas não resistiu aos ferimentos e morreu posteriormente.
Conforme o relato policial, o motorista seguia pela RO-492, sentido Parecis, e apresentava sinais visíveis de embriaguez. Segundo relatos ele não conseguia informar com clareza a dinâmica do acidente.
Durante os levantamentos realizados no local, foram encontrados fragmentos do veículo na pista contrária e ao longo de aproximadamente 60 metros, até o ponto onde a vítima foi localizada. As circunstâncias indicam, preliminarmente, que o veículo teria invadido a pista contrária e atingido a pedestre.
O carro foi localizado aproximadamente um quilômetro distante do ponto onde teria ocorrido o atropelamento, fora da pista e capotado, apresentando danos de grande proporção. Segundo informação, a localização do veículo levantou a suspeita de que o condutor teria deixado o local sem prestar socorro à vítima.
A perícia foi acionada e realizou os trabalhos necessários para a investigação das circunstâncias do acidente.
O motorista aceitou realizar o teste do etilômetro, que apontou , resultado que, segundo a lei, configura crime de embriaguez ao volante.
O condutor, que não apresentava lesões aparentes, foi encaminhado à UNISP de Rolim de Moura, onde ficou à disposição das autoridades. Também foi confeccionado auto de infração referente à embriaguez.
As circunstâncias do acidente e a responsabilidade pelos fatos deverão ser apuradas pelas autoridades competentes.
O crescimento das apostas online no Brasil tem ampliado a preocupação de especialistas com os impactos da prática sobre a saúde mental, a vida financeira e as relações familiares.
Levantamento técnico do Banco Central estimou que cerca de 24 milhões de pessoas físicas participaram de jogos de azar e apostas online em 2024, realizando ao menos uma transferência via pix para empresas do setor no período analisado.
O estudo também apontou que os valores mensais movimentados variaram entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões, considerando transferências brutas feitas às plataformas.
Segundo o Ministério da Fazenda, em 2025, mais de 25 milhões de brasileiros fizeram apostas em empresas autorizadas a operar no país.
Para a coordenadora do curso de Psicologia da Afya São Lucas, em Porto Velho (RO), Emanuelly Guimarães, o problema começa quando a aposta deixa de ser uma atividade eventual de entretenimento e passa a ocupar espaço central na rotina da pessoa. Segundo ela, a dinâmica de recompensa imprevisível, associada à liberação de dopamina no cérebro, pode reforçar o comportamento de apostar repetidamente, mesmo diante de perdas financeiras e prejuízos emocionais.
A psicóloga explica que a facilidade de acesso pelo celular, a publicidade intensa e a promessa de ganho rápido aumentam a exposição ao risco, especialmente entre pessoas com histórico de outras dependências, dificuldades emocionais ou maior vulnerabilidade financeira.
Confira a entrevista:
Por que os jogos de aposta podem se tornar um vício? Quais mecanismos psicológicos fazem com que algumas pessoas tenham dificuldade em parar de apostar?
Assim como qualquer outro comportamento exagerado, os jogos de apostas podem se tornar um vício quando são praticados de forma contínua e sem controle. Ao jogar, há a liberação de dopamina, um neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação. Essa liberação gera uma sensação de recompensa no cérebro.
O grande problema é que essa recompensa acontece de forma imprevisível, porque a pessoa nunca sabe quando vai ganhar. Como ela não sabe quando a recompensa virá, continua jogando, reforçando esse comportamento na tentativa de senti-la novamente.
Muitos apostadores desenvolvem uma falsa sensação de que conseguem prever quando vão ganhar ou perder, e usam isso para justificar novas apostas, muitas vezes com o objetivo de recuperar o dinheiro perdido. Esse ciclo de expectativa, perda e nova tentativa torna muito mais difícil interromper o comportamento e pode levar à dependência.
Quais são os primeiros sinais de que uma aposta deixou de ser entretenimento e passou a representar um comportamento de risco ou dependência?
O principal sinal é quando a aposta deixa de ser algo divertido e passa a ocupar um espaço muito grande na vida da pessoa. Ela começa a pensar apenas nisso, organiza sua rotina em torno do jogo, faz apostas cada vez maiores e passa muito tempo pensando em apostar novamente.
Outro sinal importante é quando a pessoa tenta parar, mas volta a jogar. Ela também pode começar a mentir sobre as apostas, tentar recuperar o dinheiro perdido apostando de novo ou usar o jogo para aliviar ansiedade, tristeza, estresse ou outros desconfortos emocionais.
Quando essa atividade começa a causar prejuízos que ultrapassam o campo financeiro e atingem a vida emocional, familiar e social, já não estamos falando apenas de diversão ou entretenimento. Estamos falando de dependência.
Existe um perfil mais vulnerável ao vício em apostas ou qualquer pessoa pode desenvolver esse problema? Quais fatores aumentam esse risco?
Qualquer pessoa, de qualquer idade, pode desenvolver dependência em jogos de aposta. Mas existem perfis com maior vulnerabilidade. Pessoas com histórico de outras dependências, por exemplo, podem ter mais risco, especialmente quando usam determinados comportamentos para lidar com frustrações, estresse ou sofrimento emocional.
Outro fator importante é a facilidade de acesso. Antes, muitas pessoas tinham certo pudor em jogar porque precisavam ir até um local físico e se expor. Hoje, com a disponibilidade dos jogos no celular, a qualquer hora, e com forte publicidade prometendo ganhos simples, rápidos e maiores que o investimento, a exposição ao risco aumentou bastante.
Como o vício em apostas pode afetar a saúde mental, os relacionamentos familiares, a vida profissional e a situação financeira da pessoa?
Os impactos podem ser bastante amplos e atingir todos os níveis da vida da pessoa. Na família, podem surgir conflitos, perda de confiança, isolamento e problemas financeiros. No trabalho, pode haver queda de rendimento, faltas, dificuldade de concentração e problemas nas relações interpessoais.
Na saúde mental, os prejuízos também são significativos. A pessoa pode desenvolver ansiedade, culpa, depressão, irritabilidade e, em casos mais graves, pensamentos suicidas. A dependência atinge a rede familiar, social e profissional do sujeito, com intensidade variável conforme a forma como ele lida com o problema.
Qual é o papel do acompanhamento psicológico no tratamento da dependência em apostas? Quais abordagens costumam apresentar melhores resultados?
O acompanhamento psicológico é fundamental no tratamento da dependência em jogos de aposta, assim como em outras situações em que o sujeito não consegue lidar sozinho com determinados comportamentos ou compreender o que está acontecendo em sua vida.
Independentemente da abordagem, a terapia ajuda a pessoa a modificar pensamentos relacionados à dependência, compreender melhor o próprio comportamento, reconhecer impulsos e identificar gatilhos emocionais que podem levá-la a buscar o jogo como recompensa imediata.
A terapia também ajuda a construir estratégias mais saudáveis para lidar com as dificuldades envolvidas na dependência, oferecendo ao sujeito uma visão mais ampla de si mesmo e dos caminhos possíveis para se libertar desse ciclo.
Familiares e amigos conseguem identificar o problema? Quais mudanças de comportamento devem servir de alerta e como oferecer ajuda sem julgamentos?
Dependendo do ciclo social em que a pessoa está inserida, familiares e amigos costumam ser os primeiros a perceber o problema. Os sinais mais significativos são mudanças de comportamento, isolamento, preocupações excessivas, mentiras, irritabilidade e alterações na forma como a pessoa lida com dinheiro.
Pedidos de empréstimo, irritação quando o assunto envolve dinheiro, uso constante de aplicativos e mudanças bruscas de humor também devem acender um alerta.
A melhor forma de ajudar é adotar uma postura de acolhimento, e não de acusação. Julgamentos costumam aumentar a culpa que a pessoa já carrega e podem fazer com que ela esconda ainda mais o problema. O ideal é demonstrar preocupação real e incentivar a busca por ajuda profissional e tratamento.
Quais estratégias podem ajudar uma pessoa a controlar o impulso de apostar e evitar recaídas durante o tratamento?
A principal estratégia, considerando o contexto atual, é reduzir o acesso às apostas. Isso inclui limitar ou excluir aplicativos, grupos de pessoas que estimulam esse comportamento e conteúdos relacionados a jogos e apostas. Quanto menor o acesso a esse tipo de estímulo, maior a chance de a pessoa controlar o impulso.
Também é importante limitar o acesso ao dinheiro, evitar situações já identificadas como gatilhos e substituir hábitos ligados ao jogo por atividades mais saudáveis e prazerosas. Fortalecer uma rede de apoio também é essencial para os momentos em que a pessoa se sente mais vulnerável.
As recaídas podem acontecer no processo de recuperação, mas isso não significa que o tratamento não esteja funcionando. Elas fazem parte do processo e ajudam a ajustar as estratégias de cuidado.
Em que momento é importante procurar ajuda profissional e quais são os riscos de adiar o tratamento?
A ajuda profissional deve ser procurada quando a pessoa percebe que perdeu o controle, que já não consegue controlar os impulsos relacionados ao jogo e que o comportamento está gerando prejuízos.
Isso acontece quando ela entra em um ciclo de apostar, perder dinheiro, buscar mais dinheiro e apostar novamente, e quando os danos começam a atingir também a vida emocional, financeira, profissional e familiar.
Quanto mais cedo a pessoa identifica a necessidade de tratamento, maiores são as chances de recuperação e menores tendem a ser os danos. Adiar a busca por ajuda pode agravar a dependência, aumentar dívidas, romper vínculos familiares e contribuir para o desenvolvimento de outros transtornos mentais.
A dependência em apostas tem tratamento, mas é necessário que a pessoa procure ajuda com o objetivo real de mudar.
Por: Hermes | Assessor de imprensa virtual da Agencia Catraia